Operação contra irregularidades em bets cumpre mandados em João Pessoa e investiga movimentação de R$ 5 bilhões

28 de agosto de 2026

O Ministério Público Federal (MPF) e a Receita Federal deflagraram, nesta sexta-feira (28), a Operação Jogo de Sombras, que investiga suspeitas de sonegação fiscal, evasão de divisas e lavagem de dinheiro relacionadas ao mercado de apostas de quota fixa, as chamadas bets. A ação cumpre mandados de busca e apreensão em João Pessoa, Recife e São Paulo.

Ao todo, a Justiça autorizou o cumprimento de seis mandados de busca e apreensão nas três capitais. Também foi determinada a apreensão de bens e valores ligados aos investigados.

A investigação tem como alvo um grupo empresarial responsável por uma plataforma de apostas esportivas que, segundo os investigadores, teria movimentado mais de R$ 5 bilhões somente ao longo de 2025.

Empresa sediada em Curaçao é investigada

De acordo com os elementos reunidos durante a apuração, o grupo teria criado uma empresa de fachada em Curaçao, país localizado no Caribe, com o objetivo de simular que a plataforma de apostas funcionava fora do Brasil antes da regulamentação do setor.

Apesar disso, empresas brasileiras relacionadas ao grupo seriam, na prática, as responsáveis pela operação das atividades realizadas no território nacional.

Os investigadores também encontraram indícios de que instituições de pagamento e operações financeiras estruturadas teriam sido utilizadas para transferir recursos entre o Brasil e outros países.

Segundo a investigação, parte desses valores teria retornado ao Brasil por meio de pagamentos apresentados como prestação de serviços. O mecanismo, conforme a suspeita, poderia ter sido utilizado para dar aparência de legalidade à repatriação de recursos que haviam sido enviados anteriormente ao exterior.

Investigação mira contas mantidas em fintechs

Outro ponto analisado pelos investigadores é a possível utilização de contas bolsão mantidas em fintechs. Essas contas, segundo a apuração, poderiam dificultar o rastreamento das movimentações financeiras e a identificação dos verdadeiros beneficiários dos recursos.

Embora o grupo tenha obtido autorização para atuar no mercado regulado de apostas em 2025, a investigação aponta indícios de que as atividades já eram realizadas no Brasil antes da autorização oficial.

Durante esse período, a plataforma teria operado sem autorização e sem o pagamento dos tributos que seriam devidos pelas atividades realizadas no país.

A apuração também pretende esclarecer se os recursos utilizados para o pagamento da outorga necessária para atuação no mercado regulado tiveram origem em atividades desenvolvidas antes da regulamentação das apostas.

Despesas supostamente fictícias também estão na mira

O MPF e a Receita Federal investigam ainda possíveis irregularidades praticadas depois da entrada em vigor do novo marco regulatório das apostas de quota fixa.

Conforme os elementos obtidos durante a investigação, parte da estrutura utilizada pelo grupo antes da regulamentação teria sido adaptada para continuar operando mecanismos que poderiam resultar em sonegação fiscal.

Entre as suspeitas está a declaração de despesas supostamente fictícias ao Fisco. De acordo com a apuração, essas despesas teriam sido utilizadas para reduzir de maneira indevida os valores de tributos que deveriam ser recolhidos a partir do ano-calendário de 2025.

Os investigadores agora analisam documentos e informações financeiras para verificar a extensão das possíveis irregularidades e identificar os responsáveis pelas operações.

Operação mobiliza procuradores, policiais, peritos e servidores da Receita

A Operação Jogo de Sombras é conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público Federal.

As diligências realizadas nesta sexta-feira contam com a participação de dez procuradores da República, além de policiais do MPF e peritos da Secretaria de Perícia, Pesquisa e Análise.

A Receita Federal também participa da operação. Ao todo, 28 servidores, entre auditores-fiscais e analistas-tributários, foram mobilizados para o cumprimento das medidas determinadas pela Justiça.

Os resultados iniciais da operação serão apresentados em uma entrevista coletiva marcada para as 10h45 desta sexta-feira, na sede da Receita Federal, em Brasília.

Segunda grande operação contra irregularidades no setor de apostas

A ação desta sexta-feira é a segunda operação de grande porte realizada pelo MPF e pela Receita Federal para investigar possíveis irregularidades tributárias e financeiras envolvendo empresas do mercado de apostas.

Em 13 de agosto, os órgãos deflagraram a Operação Arena, que cumpriu 17 mandados de busca e apreensão em cinco estados.

Na ocasião, a Justiça também autorizou a apreensão de até R$ 1 bilhão em bens e valores relacionados aos investigados.

Com os materiais recolhidos durante a Operação Jogo de Sombras, os investigadores deverão aprofundar a análise dos fluxos financeiros movimentados pelo grupo, tanto no Brasil quanto no exterior.

A apuração também buscará identificar possíveis omissões de receitas e esclarecer quem seriam os beneficiários finais das operações financeiras investigadas.

Segundo o MPF e a Receita Federal, as informações obtidas durante as diligências poderão subsidiar a adoção de novas medidas nas esferas tributária e penal.