A aprovação de três membros da mesma família de Patos, no interior da Paraíba, para o cargo de Auditor-Fiscal do Trabalho (AFT) no Concurso Nacional Unificado (CNU) de 2024 levantou suspeitas que desencadearam uma investigação da Polícia Federal (PF) sobre um esquema de fraude em concursos públicos. O grupo investigado cobrava até R$ 500 mil para garantir aprovações por meios ilícitos.
De acordo com o Ministério Público Federal (MPF), as fraudes incluíam acesso prévio às provas, uso de pontos eletrônicos para transmissão de respostas e falsificação de documentos para permitir que candidatos mais preparados fizessem as provas no lugar dos inscritos. Na operação Última Fase, deflagrada na semana passada, três pessoas foram presas.
A PF identificou o ex-policial militar Wanderlan Limeira de Sousa como um dos principais articuladores do esquema, com conexões com quase todos os investigados. A reportagem tentou contato com o escritório que representa Wanderlan, mas o advogado que o acompanhou na audiência de custódia informou que ainda não decidiu se continuará no caso e não forneceu contato direto.
Wanderlan, seu irmão Antônio Limeira das Neves e sua sobrinha Larissa Neves foram aprovados para o cargo de AFT, com salário inicial de R$ 22.921,71. Outros seis candidatos aprovados na primeira fase do CNU também estão sob investigação por apresentarem gabaritos idênticos aos do grupo, com erros e acertos coincidentes.
O Ministério da Gestão, em nota, afirmou que está cumprindo as determinações judiciais e colaborando com a PF e a Justiça, aguardando os desdobramentos da operação para tomar medidas adicionais, se necessário.
Larissa Neves, sobrinha de Wanderlan, realizou a prova em Patos, embora resida em São Paulo, segundo a PF. A análise de seu celular revelou conversas com seu pai, Antônio, discutindo o pagamento de R$ 500 mil pelo gabarito do CNU. As mensagens indicam que pai e filha negociaram a venda de imóveis e usaram peças de ouro e um veículo como parte do pagamento.
As conversas mostram que Larissa teve acesso às respostas da prova da manhã antes das 8h do dia 18 de agosto de 2024, quando o exame começou às 9h. Às 11h39, ela recebeu as respostas da prova da tarde, que teve início às 14h30. Além disso, Larissa obteve um texto pronto para a redação, correspondente ao tema exigido, que ela descreveu como “grande para caramba” devido ao seu tamanho.
No dia 20 de agosto, após a divulgação do gabarito oficial, mensagens entre Larissa e Antônio indicam que ela errou apenas cinco questões. No dia seguinte, Larissa perguntou ao pai sobre o curso de formação, etapa final para a posse no cargo, demonstrando desconhecimento sobre essa exigência.
A investigação também aponta Luiz Paulo Silva dos Santos, suspeito de participar de fraudes em mais de 67 concursos públicos. Ele e Wanderlan teriam feito a prova do CNU apenas para demonstrar a viabilidade do esquema, sem prosseguir para o curso de formação, apesar de aprovados. A defesa de Luiz Paulo não foi localizada.
Thyago José Andrade, outro investigado, é apontado como operador da fraude. Mensagens mostram Antônio pedindo ajuda para garantir a aprovação de Larissa nas provas objetivas do curso de formação, com Thyago respondendo que as respostas seriam entregues “no banheiro”. Há também diálogos sobre fraudes em outros concursos, como a inscrição de Antônio para um certame de delegado da PF, no qual outra pessoa faria a prova em seu lugar. A defesa de Thyago afirmou estar confiante na inocência do cliente e que provará isso em momento oportuno.
Ariosvaldo Lucena de Sousa Júnior, policial militar do Rio Grande do Norte e proprietário de uma clínica odontológica em Patos, também está entre os investigados. Ele teria se beneficiado do esquema no CNU e atuado como intermediário na venda de gabaritos. A Justiça determinou busca e apreensão em seu endereço e medidas cautelares, mas a perícia da PF não encontrou evidências diretas de sua participação em suas mídias digitais. A defesa de Ariosvaldo, representada pelo escritório Maikon Minervino Advocacia Especializada, afirma que as acusações são baseadas em “meros indícios” e não refletem a realidade.
A PF revelou que Wanderlan frequentemente comprava e vendia veículos como forma de pagamento pelos gabaritos fornecidos aos candidatos beneficiados. A prática, segundo os investigadores, era usada para mascarar as transações financeiras do esquema.
A reportagem tentou contatar as defesas de Larissa e Antônio por meio da Defensoria Pública da União (DPU) da Paraíba, mas não obteve retorno até o momento da publicação.